De Madrid a Toledo, de ônibus, a viagem dura cerca de uma hora e meia. Existe a opção de ir de trem, mas a freqüência é menor, o preço é mais alto e a estação fica mais longe que a rodoviária, do centro antigo. Pagamos 16 euros cada um, pela ida e pela volta, e nos mandamos.
 Cartaz com a imagem e o nome de procurados do ETA, na rodoviária de Toledo. |
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Da rodoviária de Toledo até a cidade antiga são cerca de dez minutos de caminhada. Sobe-se uma ladeira leve, três ou quatro ruelas mais e se chega à praça central, onde existe, certamente, a maior concentração de lojas de armaduras, espadas e tabuleiros de jogo de xadrez da Europa. Descobri, depois, que, já nos tempos do império Romano, a região de La Mancha era famosa pela qualidade das espadas que produzia. Hoje, só pode ser a globalização, vendem até espada de samurai. Tremenda picaretagem.
Fora o comércio de quinquilharias exóticas, a arquitetura de Toledo é um excelente exemplo de quão claustrofóbicas e caóticas deviam ser as cidades nos tempos medievais. Dentro da fortaleza do castelo, existem prédios e mais prédios, colados uns nos outros, formando um labirinto de ruas estreitas, que, vez ou outra, terminam em praças, igrejas, mesquitas e sinagogas. Imagino aquilo tudo sem saneamento básico, as ruas apinhadas de gente, merda de cavalo, de boi e de outros animais pra tudo que era lado. Devia ser uma catinga dos diabos, sob um sol de lascar, com pouco vento pra aliviar a barra. Hoje, o lugar é limpinho, bonito e cheiroso, a comida é sensacional, e os espanhóis enchem as burras com os turistas.
A cidade tem, de fato, atrativos de sobra para justificar a visita. Construída em 192 A.C. pelos Romanos, sobre as ruínas de uma antiga vila, Toledo foi uma importante cidade dos reinos visigodo e mouro, antes de cair sob o domínio do Rei Afonso VI, em 1085, que a transformou num centro de tolerância religiosa, abrigando pacificamente cristãos, judeus e muçulmanos. No século XIII, a mistura de culturas faria dela um dos principais centros culturais europeus, responsável pela tradução de textos clássicos árabes, judeus e gregos. Já por volta do século XV, durante o reinado de Carlos I, o primeiro a reunir os reinos de Aragão e Castela, seria capital do reino espanhol, status que manteve até 1563, quando Madrid passou a ser a sede do império. Mesmo preterida pela realeza, a região de Toledo seria escolhida por Miguel de Cervantes como ponto de partida para o personagem principal do livro Don Quixote, Don Quixote de la Mancha, maior clássico da literatura espanhola, publicado em 1605. Outro grande nome das artes, o pintor, escultor e arquiteto El Greco (Domenico Theotocópulo), um dos principais expoentes da renascença espanhola, viveu e trabalhou a maior parte de sua vida na cidade, onde morreu, em 1614.
Já nos daríamos por satisfeitos com tudo isso. Mas foi lá, ainda, que encontramos as melhores azeitonas do mundo. Não sei se já falei aqui neste post, mas é tradição na Espanha os bares oferecerem junto com a bebida algo para comer. Você pede uma cerveja e recebe junto, sem pagar mais por isso, um prato com aperitivos. Quanto mais se bebe, mais farta é a porção, que pode ser de azeitonas, queijos, pasteizinhos e outros acepipes.
No mais, outra coisa que nos chamou a atenção na cidade foi descobrir que ela é hoje um dos destinos preferidos de casais espanhóis, na hora da troca de alianças. No pouco tempo que passamos em Toledo, vimos três festas de casamento acontecendo nas igrejas locais. Na última, tinha até “paella” rolando, do lado de fora, com champanhe em copo plástico.
Já quase escurecendo, nos mandamos pra rodoviária, com planos de jantar em casa, tomar um banho e sair pra uma noitada. Mas, chegando em casa, já lá pelas 10h da noite, depois de uma boa macarronada, ninguém teve mais muito pique pra nada. Ficamos em casa, para descansar e aproveitar direito o dia seguinte.