Pela Europa de mochila

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Em algum lugar de La Mancha…

Dezembro 14, 2008 · Deixe um comentário

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De Madrid a Toledo, de ônibus, a viagem dura cerca de uma hora e meia. Existe a opção de ir de trem, mas a freqüência é menor, o preço é mais alto e a estação fica mais longe que a rodoviária, do centro antigo. Pagamos 16 euros cada um, pela ida e pela volta, e nos mandamos.

Cartaz com a imagem e o nome de procurados do ETA, na rodoviária de Toledo.

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Da rodoviária de Toledo até a cidade antiga são cerca de dez minutos de caminhada. Sobe-se uma ladeira leve, três ou quatro ruelas mais e se chega à praça central, onde existe, certamente, a maior concentração de lojas de armaduras, espadas e tabuleiros de jogo de xadrez da Europa. Descobri, depois, que, já nos tempos do império Romano, a região de La Mancha era famosa pela qualidade das espadas que produzia. Hoje, só pode ser a globalização, vendem até espada de samurai. Tremenda picaretagem.

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Fora o comércio de quinquilharias exóticas, a arquitetura de Toledo é um excelente exemplo de quão claustrofóbicas e caóticas deviam ser as cidades nos tempos medievais. Dentro da fortaleza do castelo, existem prédios e mais prédios, colados uns nos outros, formando um labirinto de ruas estreitas, que, vez ou outra, terminam em praças, igrejas, mesquitas e sinagogas. Imagino aquilo tudo sem saneamento básico, as ruas apinhadas de gente, merda de cavalo, de boi e de outros animais pra tudo que era lado. Devia ser uma catinga dos diabos, sob um sol de lascar, com pouco vento pra aliviar a barra. Hoje, o lugar é limpinho, bonito e cheiroso, a comida é sensacional, e os espanhóis enchem as burras com os turistas.

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A cidade tem, de fato, atrativos de sobra para justificar a visita. Construída em 192 A.C. pelos Romanos, sobre as ruínas de uma antiga vila, Toledo foi uma importante cidade dos reinos visigodo e mouro, antes de cair sob o domínio do Rei Afonso VI, em 1085, que a transformou num centro de tolerância religiosa, abrigando pacificamente cristãos, judeus e muçulmanos. No século XIII, a mistura de culturas faria dela um dos principais centros culturais europeus, responsável pela tradução de textos clássicos árabes, judeus e gregos. Já por volta do século XV, durante o reinado de Carlos I, o primeiro a reunir os reinos de Aragão e Castela, seria capital do reino espanhol, status que manteve até 1563, quando Madrid passou a ser a sede do império. Mesmo preterida pela realeza, a região de Toledo seria escolhida por Miguel de Cervantes como ponto de partida para o personagem principal do livro Don Quixote, Don Quixote de la Mancha, maior clássico da literatura espanhola, publicado em 1605. Outro grande nome das artes, o pintor, escultor e arquiteto El Greco (Domenico Theotocópulo), um dos principais expoentes da renascença espanhola, viveu e trabalhou a maior parte de sua vida na cidade, onde morreu, em 1614.

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Já nos daríamos por satisfeitos com tudo isso. Mas foi lá, ainda, que encontramos as melhores azeitonas do mundo. Não sei se já falei aqui neste post, mas é tradição na Espanha os bares oferecerem junto com a bebida algo para comer. Você pede uma cerveja e recebe junto, sem pagar mais por isso, um prato com aperitivos. Quanto mais se bebe, mais farta é a porção, que pode ser de azeitonas, queijos, pasteizinhos e outros acepipes.

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No mais, outra coisa que nos chamou a atenção na cidade foi descobrir que ela é hoje um dos destinos preferidos de casais espanhóis, na hora da troca de alianças. No pouco tempo que passamos em Toledo, vimos três festas de casamento acontecendo nas igrejas locais. Na última, tinha até “paella” rolando, do lado de fora, com champanhe em copo plástico.

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Já quase escurecendo, nos mandamos pra rodoviária, com planos de jantar em casa, tomar um banho e sair pra uma noitada. Mas, chegando em casa, já lá pelas 10h da noite, depois de uma boa macarronada, ninguém teve mais muito pique pra nada. Ficamos em casa, para descansar e aproveitar direito o dia seguinte.

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Teleférico, jardim botânico e visita ao cassino

Maio 25, 2008 · 2 Comentários

Na manhã seguinte, nosso quarto dia em Funchal, subimos o morro de teleférico e visitamos a igreja da Nossa Senhora do Monte, onde está a tumba do último imperador da Áustria, Carlos I, que morreu exilado na ilha, em 1922. A vista que se têm da cidade na subida é muito bonita, mas não nos sentimos muito confortáveis no vagão de seis lugares, pendurado por apenas um cabo de aço. Lá em cima, além da igreja, nos chamou atenção a cambada de malacos que vive de descer turistas morro abaixo, em trenós de madeira, de dois lugares, escorregando. No arranque, os dois condutores puxam o trenó por cordas e, em seguida, se posicionam na parte de trás para direcionar o veículo com o pé em que não estão apoiados – os sapatos que usam têm solas de borracha de uns três ou quatro centímetros de espessura. O preço: 25 euros, por cabeça. E a gringarada toda, em especial os mais velhos, pagam. Fiquei sabendo pelo Rodrigo, depois, que a profissão é bem remunerada para os padrões da ilha.


Voltamos para casa, pegamos a Malu e nos mandamos para outro morro, dessa vez de carro, conhecer o jardim botânico de Funchal. Lugar bonito, vista bonita da cidade. Nos lembrou o Brasil, pela variedade e exuberância das plantas. Cactos, flores grandes e coloridas, orquídeas, bromélias e uma ampla variedade de árvores frutíferas.

À noite, dei um pulo no Diário de Notícias, onde o Rodrigo trabalha, para conhecer o jornal e ver a gravação do programa que ele se meteu a fazer na rádio local, que pertence ao mesmo grupo de comunicação. O cara foi contratado para tocar a reforma gráfica do diário, mas, puto de não encontrar nenhum bar que toque rock and roll, passou a levar igualmente a sério a idéia de catequizar a juventude local com guitarras distorcidas.

O fechamento atrasou. Mas, ainda assim, passada a meia-noite, fomos todos tentar a sorte no cassino da ilha, uma espelunca barulhenta e carregada de fumaça de cigarro, que funciona num hotel de luxo próximo do centro da cidade. Cansada, a Erika não jogou. Eu perdi 5 euros na roleta, mas o Rodrigo e a Malu tiveram melhor sorte no caça níqueis. Ele ganhou uns 50 e tantos centavos, ela levou para casa mais de 30 euros.

Curral das freiras e o futebol local


O Curral das Freiras (curral é vale, no português de lá) foi a atração seguinte do nosso roteiro, já em nosso quinto dia de Ilha da Madeira. Fundado por religiosas ainda nos tempos em que os ataques de piratas à ilha amedrontavam a população local, o lugar é hoje um pequeno vilarejo, incrustado no meio de um vale com montanhas de mais de mil metros de altura. Já não existe convento ou qualquer edificação que lembre as freiras. A graça do passeio é percorrer as sinuosas e estreitas estradas à beira de penhascos observando a vista. Logo acima da vila, há um mirante, de onde é possível avistar o mar, em dias de céu claro. Depois de apreciarmos a paisagem lá do alto, descemos em direção à vila e almoçamos uma das especialidades locais: sanduíche de bolo do caco, um X-Salada que, ao invés de hambúrguer, é feito com um bife macio e um pão redondo e achatado, com uns dois dedos de espessura e uma casca que parece a de massa de pizza. Na verdade, neste dia, ao invés do bife, comemos um bolo do caco com filé de peixe espada, outra especialidade local.

Do curral, fomos direto assistir a uma partida de futebol entre Os Belenenses, de Lisboa, e O Nacional, um dos dois times locais que integram a primeira divisão do campeonato português, com ingressos que o Rodrigo nos arrumou. O primeiro tempo foi uma tremenda pelada, mas o jogo melhorou um pouco no segundo tempo e terminou 2 a 1, para o time visitante.

Melhor que a partida, em si, foi conhecer algumas das histórias sobre o futebol da ilha. O estádio do Nacional, onde assistimos à partida, por exemplo, foi construído no alto de uma morreba, que deve ter pelo menos uns 800 metros de altitude. Só que, incautos, os responsáveis pelo projeto, concluído no final do ano passado, esqueceram de levar em conta a alta incidência de neblina no local. Em função disso, é comum jogos serem interrompidos por falta de visibilidade.

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